
Às 21h30m em ponto, Miley Cyrus subiu ao
palco – bem simples, diga-se de passagem – da Arena HSBC, na Barra da
Tijuca, na noite desta sexta-feira. Na plateia, uma legião de fãs que
pareciam até obedecer a uma ordem: maior de um metro e meio não entra.
Em sua maioria infantil, o público de 13 mil pessoas que aguardava a
cantora e atriz, conhecida pela série “Hannah Montana” e que se
apresentou no Brasil pela primeira vez, provavelmente não está nem aí
para as polêmicas em que Miley se envolve de tempos em tempos. Querendo
mostrar uma sensualidade por vezes exagerada – provavelmente para
reafirmar que cresceu e deixou os tempos de estrelinha da Disney para
trás – , a moça acabou surpreendendo boa parte dos pobres pais,
arrastados pelas crianças ao show. Sem playback e sem medo de se
arriscar nas notas mais altas, além de cantar de verdade, Miley
conseguiu a proeza de fazer menores de 12 anos entoarem sucessos de
nomes como Poison e Joan Jett – e, como esperado, ainda deu sua versão
do clássico “Smells like teen spirit”, do Nirvana. Pois é. Miley, quem
diria, tem um pé no rock.
De shortinho, cinta-liga estilizada e uma jaqueta de couro vermelha –
o primeiro dos seis figurinos da noite, que incluíram ainda uma calça
justíssima e um macacão-corpete vermelho com um coração dourado -, a
cantora abriu o show com “Liberty walk”. “Party in the USA”, um de seus
hits mais recentes, veio em seguida. Na pista, uma garotinha exibia um
cartaz onde “USA” era substituído por “Rio”. Mas a versão em português
não colou. Miley, aliás, só cumprimentou os fãs após a terceira
música, “Kicking and screaming”. “Oi, Rio, muito obrigada. Tenho que
dizer, vocês são a razão da turnê ‘Gypsy Heart’ existir”, disse a
cantora, simpática, que ainda se apresenta em São Paulo neste fim de
semana.
Mais gritos. E o
medley Joan Jett, que incluiu “I love
rock ‘n roll”, “Cherry bomb” e “Bad reputation”. Cantar sobre má
reputação pode parecer até uma espécie de piada sobre si mesma, depois
de muitas pequenas confusões – como as fotos de seu aniversário de 18
anos, onde aparecia fumando o que depois foi confirmado como sálvia.
Mas a criançada não liga para essas coisas mundanas. E canta do início
ao fim, com rosas nas mãos, o hit oitentista “Every rose has its
thorn”, do farofento Poison. Alguns pais acham graça: “Essa era da
minha época” , diz um homem, aparentando seus 40 anos, à sua filha.
Com um timbre mais country – seu pai, Billy Ray Cyrus, fez sucesso no gênero – e em tempos de
auto tunes,
Miley impõe sua voz, que soa bem mais potente ao vivo do que nos
álbuns. Na pista, as pequenas fãs se dividiam entre as fases da
cantora. As mais menininhas desfilavam de short jeans e camisetinhas.
As mais velhas, entre 10 e 14 anos, já ousavam mais no look. Leggings,
sainhas curtas, camisas xadrez, botas e sapatos de salto eram
facilmente notados. Qual a influência de Miley sobre essas garotas?
- Ainda bem que minha filha não gosta – comemorava a professora Ana
Paula Dias, ao lado da sobrinha. – Ela sensualiza demais. As crianças
são muito pequenas. Não entendem algumas coisas, mas querem copiar o
que veem.
No palco, Miley cumprimenta o público mais uma vez. Reclama do
calor, e diz estar preocupada com quem está na fila do gargarejo. “Quero
que todo mundo consiga acompanhar o show até o final, sem desmaiar por
causa do calor. Vamos nos acalmar. Estou abraçando vocês aqui de
cima”, recomendou. O apelo funcionou: apenas oito atendimentos mais
graves foram registrados no posto médico da Arena – em sua maioria,
crianças emocionadas acabaram dando baixa por lá. Depois de mais um
sucesso, “Fly on the wall”, a cantora desejou “feliz sexta-feira 13″ a
todos: disse que esse era o dia de mais sorte, lembrou o aniversário da
mãe e pediu que o público desse parabéns a ela.
Ela segue animada. “Essa música é para todos os artistas que me
inspiraram e que me deram coragem para seguir adiante. Espero que eu
possa significar o mesmo para vocês, e que vocês possam ir atrás de seus
sonhos”, disse Miley, antes de puxar o cover de “Smells like teen
spirit” e vestir uma camiseta do Nirvana. O que o falecido Kurt Cobain,
líder da banda, acharia disso?
- O show está me surpreendendo – afirmou a advogada Mariana
Gonçalves, junto da filha. – Ela canta de verdade, o som tem uma pegada
mais rock. Musicalmente, é uma boa influência para as crianças, pode
despertar o interesse pelas canções originais. E se minha filha está
feliz, isso é o que importa.
Momento mais sensual da noite, o hit recente “Cant be tamed” fez
Miley ser levantada por dois dançarinos, vestida com um corpete roxo e
com uma bengala, numa manobra um tanto Lady Gaga. Os bailarinos, aliás,
destoam completamente do show. Com uma pegada mais rock, mesmo em meio a
baladas como “The climb” (dos tempos de “Hannah Montana”, a canção foi
trilha do filme da personagem), coreografias e figurinos um tanto
demodês não combinavam com a postura mais agressiva da moça no palco.
A bandeira do Brasil ficou só no telão, e não nas mãos da cantora,
como muitos artistas costumam fazer. O bis, de três músicas, teve “See
you again”, “My heart beats for love” e “Who owns my heart”. Uma hora
meia depois, a apresentação chega ao fim.
- Olha, achei o palco meio chocho, meio sem vida – avalia Maria
Eduarda Matsumoto, de 11 anos. A menina veio de Búzios, na Região dos
Lagos, no Rio, apenas para a apresentação. – Mas o show foi ótimo. A
Miley é muito bonita, e cantou muitos sucessos. Valeu a pena –
completou, tentando tirar uma foto que fosse com o celular para mostrar
às amigas. Coisa que claro, quase todas as meninas (e meninos, que não
eram poucos) fizeram.
No fim da noite, até que os pais não saíram tão arrasados assim. E
Miley, que ainda parece estar tentando descobrir sua própria identidade
como artista, sem a aura de heroína Disney, demonstra que está no
caminho certo. Tudo é uma questão de ajustes, mas o mais importante –
cantar para valer – a moça já faz. O resto se resolve com o tempo.